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Leo Cunha - Literatura infanto-juvenil
Desde: 22/12/2003      Publicadas: 217      Atualização: 28/05/2015

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 Entrevistas

  19/04/2010
  0 comentário(s)


Entrevista à web-revista Tigre Albino

A Tigre Albino é atualmente a principal
publicação brasileira voltada exclusivamente
para a poesia infantil e juvenil. Em sua nova
edição (vol. 3, nº 2), a revista publica uma
entrevista que eu concedi à editora e
pesquisadora Annete Baldi.

Entrevista à web-revista Tigre Albino
Apresentação:

Leo Cunha é o entrevistado desse número de Tigre Albino. Doutorando em Artes Visuais pela UFMG
e professor da PUC de Minas Gerais, é um autor reconhecido nacionalmente pela sua produção
literária dirigida às crianças, tanto no campo da narrativa quanto na poesia. Ele participou do
primeiro número desta revista, com um artigo instigante, em que reconhecia duas correntes
principais no campo da produção literária para crianças: uma, marcada pelo lirismo e outra pelo
humor. Desta vez ele fala sobre ele mesmo e sobre o que escreve. O leitor encontrará aqui os
autores que o influenciaram, como acontece seu processo criativo, o que deve ter um bom poema e
o que ele diria a um professor na sala de aula preocupado com o aprendizado da poesia.

Entrevista:

TIGRE ALBINO - Muitos poemas que publicaste lembram o jeito-Mario-Quintana-de-escrever-poesia.
Como percebes essa influência?

LEO CUNHA - Sou leitor do Quintana desde a adolescência, tanto dos poemas quanto das frases,
aforismos e mini-crônicas. É sempre uma leitura que me faz bem. Talvez, mais que uma influência,
acho que é um carinho que eu tenho por ele. E também uma afinidade: temos um senso de humor
parecido, um gosto pela brevidade e pela delicadeza, e muitos temas afins (o tempo, a infância, a
beleza, os bichos, os mistérios, a própria poesia etc).

Um dos casos mais felizes, para mim, aconteceu no dia em que eu estava voltando de uma aula do
mestrado, há uns 12 anos, e passou na rua um gato preto. Na mesma hora eu me lembrei de um
poema que tinha acabado de escrever e falei:

"À noite
todos os gatos são pardais
voando dos telhados
sete vezes imortais."

Assim que eu terminei de recitar, o Nisio, meu colega de mestrado, que é um grande leitor, olhou e
disse: "Mário Quintana". E eu, encabulado, mas feliz: "Não. É Leo Cunha mesmo." O poema acabou
entrando no meu livro Cantigamente.

TIGRE - Como vês a questão da originalidade na criação literária?

LEO - Gosto de uma frase que diz: uma obra só é original até prova em contrário. Portanto não é algo
que me preocupa muito não. Acredito que a originalidade pode estar na reelaboração de uma ideia
anterior, seja em termos temáticos, de linguagem, ou de estrutura. Curto muito as chamadas
"variações sobre um mesmo tema", por exemplo, a ponto de ser uma das questões centrais da minha
tese de doutorado. Também gosto muito de adaptações, citações, homenagens, recriações etc.

Vários dos meus livros são paródias ou recriações: O dinossauro (inspirado no conto "O
crocodilo", do Dostoievski), Quase tudo na arca de noé (inspirado na passagem bíblica)
Contos De Grin Golados (inspirado nos Contos de Grimm), Joselito (inspirado em
vários livros da Sylvia). No livro Turmas do prédio, da rua e do bairro, eu parodiei uma crônica
engraçadíssima do Mario Prata. E acabei de fazer um conto inspirado por "Berenice", do Edgar Allan
Poe. Vai sair num livro da Record.

Agora no campo da poesia: quando eu estava escrevendo o livro Poemas pra ler num pulo,
de poemas curtos, eu li e reli vários haicais do Millôr, por exemplo, e muitos deles me deram ideias.
Não fiz nenhuma citação explícita, mas acredito que o clima dos haicais do Millôr está presente em
alguns dos textos do livro. Gosto dessa estratégia de, em um dado momento, ler muito um
determinado poeta e "entrar no clima" dele.

E já escrevi vários poemas homenageando poetas (José Paulo Paes, Sylvia Orthof, Quintana,
Cassiano Ricardo, Cecília Meireles, entre outros), nos quais eu "roubo", ou imito o estilo destes
poetas.

TIGRE - Ainda falando sobre influências, de alguma forma a sorte que tiveste de conviver com Sylvia
Orthof determinou algo para a formação do poeta Leo Cunha?

LEO - No caso da Sylvia, a influência é ainda mais evidente, talvez porque ela, como eu, escrevia
sobretudo para crianças. Muitas vezes, quando estou escrevendo e chego em algum impasse, corro
num livro da Sylvia, pra roubar um pouco do ritmo dela, do absurdo, da maluquice, das saídas
geniais que ela bolava para as narrativas. Acho que meus textos mais orthóficos são O menino que
não mascava chiclê, "Rapunzel no alto da torre" (conto que faz parte do livro Contos De Grin
Golados
) e Perdido no Ciberespaço. Claro, tem também o livro Joselito e seu esporte
favorito
, que é praticamente um pastiche da obra da Sylvia, uma homenagem mais que
assumida, que graças a deus eu tive coragem de mostrar pra ela quando ela ainda estava viva, feliz
e saudável. Depois que ela adoeceu, eu não teria mais coragem de mostrar pra ela, porque a
história brinca justamente com uma questão de saúde e com a grande generosidade da Sylvia.

TIGRE - Como é o teu processo de criação de um poema e de um livro de poemas?

LEO - Não tenho um processo regular, padronizado. Gosto muito de rabiscar papeizinhos, escrever
palavras e ficar olhando pra elas, lendo pra mim mesmo, achando sonoridades e ritmos
interessantes. Meus poemas nascem mais das palavras do que das ideias. Mas alguns surgem como
uma ideia, ou uma imagem, uma metáfora, e dali eu escorrego pras palavras.

Quanto aos livros de poemas, aí eu já procuro ter um certo critério. Nos primeiros livros, eu
simplesmente reunia poemas que considerava bons e achava que daria um livro. Depois fiquei
insatisfeito com isso e comecei a tentar achar um mote central para cada livro e criar poemas em
torno daquele mote. Este mote pode ser um tema (por exemplo: em Lápis Encantado, poemas
sobre as cores; em Profissonhos - um guia poético, poemas sobre as profissões), mas pode
ser uma questão formal, também (por exemplo: Em Poemas pra ler num pulo, só entraram
poemas curtos, de 3 versos; no XXII!! - 22 brincadeiras de linhas e letras, só entrou poesia
visual; no Viva-Voz!, poemas sonoros, bons pra serem lidos em voz alta). Eu "aprendi" isso
com a Roseana Murray: me parece que o livro de poesia fica melhor quando é feito em torno de uma
proposta, isso que eu estou chamando de "mote".

TIGRE - O que consideras "um poema bom"?

LEO - Não existe uma fórmula. Gosto de um poema que me surpreenda, que me faça rir, que me
engasgue, mas também um que me dê vontade de ler em voz alta, ou até mesmo cantarolar. E os
que me dão vontade de recriá-los.

TIGRE " Afirmaste antes que teus poemas "nascem mais das palavras que das ideias". Em
Cantigamente, o poema de abertura é metalinguístico, um recurso que usas bastante. Cito a
segunda estrofe:

"Poeta tem mão-de-obra.
Tjjolo aqui, laje cá,
cola a rima, tira a sobra,
encontra a palavra mágica.
Segura a letra, senão
ela cai na contramão!

Como é a sensação de encontrar a tal "palavra mágica": ela surge para ti mais do trabalho de
carpintaria ou de uma "inspiração"?

LEO - Pode surgir das duas formas, mas eu costumo passar muito tempo procurando palavras,
trocando palavras, testando os versos com palavras diferentes. Neste sentido, é carpintaria.

Não acredito muito em inspiração como algo mágico, sobrenatural. A inspiração, pelo menos para
mim, é mais uma associação de ideias, e portanto pode ser treinada, ou cultivada. Quanto mais eu
leio, mais inspirado eu fico.

TIGRE " Como é a sensação de ver teus poemas ilustrados, ter a tua palavra se transformando em
imagens na perspectiva do outro?

LEO - Eu já tive o privilégio de ter meus poemas ilustrados por grandes artistas como Eliardo França,
Graça Lima, Flávio Fargas, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Gilles Eduar, entre outros. Tenho o
costume de não pedir nada, não sugerir nada aos ilustradores, prefiro ser surpreendido pelo que
eles criaram a partir dos meus versos.

Imagino que ilustrar um livro de poesia deve ser mais difícil do que um livro de prosa, onde há
personagens, ambientação e, sobretudo, uma ação transcorrendo. No caso da poesia, muitas vezes
o ilustrador cria personagens e eventos que não existem nos versos. Eu admiro muito esse trabalho.

TIGRE " Conta como foi o processo de criação do XXII!!, que tem particularidades tão interessantes
em seu projeto gráfico?

LEO - Eu sempre gostei muito da poesia visual e, durante anos, fui criando um poema aqui, outro ali,
sempre rabiscando no papel a ideia visual, mas sem nenhum "acabamento". Antes de propor o
XXII!! - 22 brincadeiras de linhas e letras para uma editora, eu achei que precisaria levar o
projeto até um ilustrador, um artista gráfico que transformasse meus rabiscos em algo apresentável.
Mandei pelo correio os poemas para a Graça Lima e dei liberdade pra ela criar em cima. Em alguns
poemas ela seguiu bem de perto a minha ideia visual, só acrescentando cores, sombras, coisas
pequenas. Em outros, ela mudou bastante a minha proposta, e melhorou muito o poema. Foi
efetivamente um trabalho de parceria, mais do que qualquer outro livro que eu já fiz. O original
entregue para as Paulinas já foi, na verdade, o livro praticamente pronto. Também tem o mérito da
editora, de apostar num livro de poesia visual, naquele formato diferente, nas cores fortes, na capa
com recortes. É um projeto do qual eu tenho muito orgulho e o favorito da minha filha!

Mais recentemente, eu tomei coragem e fiz um segundo livro de poesia visual, mas desta vez eu
mesmo dei o passo que faltava: fiz o tal "acabamento". O livro sai em breve pela FTD e se chama
Vendo Poesia. Pela primeira vez não tive este segundo olhar, do ilustrador. Em compensação,
tive um ótimo diálogo com o Luis Camargo, o editor, que conhece a fundo tanto poesia quanto
ilustração, e deu ótimas sugestões.

TIGRE - Quem são os poetas que leste na infância e quem lês hoje?

Tenho uma memória péssima, então provavelmente vou cometer injustiças nessa resposta. Mas me
lembro de ler, na infância, muita Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Carlos Drummond, e ouvir
muito, mas muito mesmo, Chico Buarque. Já entrando na adolescência, eu lia muito Quintana,
Roseana Murray, Ronald Claver e comecei a curtir muito a poesia visual, também. Felizmente
demorei muito pra descobrir a querela entre os adeptos e os desafetos da poesia visual, porque os
mais ferrenhos parecem torcedores de futebol: se você gosta do Drummond, como vai gostar
também do Augusto de Campos? Sempre fui muito eclético, que é um jeito chique de dizer que meu
gosto é uma salada de frutas.

TIGRE - Tu também és professor... Que mensagem darias a um professor que diz: "eu não sei
trabalhar com poesia"?

LEO - Minha experiência tem mostrado que as crianças e mesmo adolescentes curtem muito a
poesia. Às vezes o professor diz que não sabe trabalhar quando na verdade ele não tem o hábito
nem de ler poesia. Sugiro que, antes de mais nada, ele leia o que se produz para crianças, em
termos poéticos no Brasil. Temos livros maravilhosos, do José Paulo Paes, Sérgio Capparelli,
Roseana Murray, Sylvia Orthof, Almir Correia, José Carlos Aragão, Elias José, Gustavo Finkler,
Neusa Sorrenti, Fernando Paixão, Ronald Claver e muitos outros. Depois é ler para as crianças e
com as crianças, recriar poemas, parodiar, fazer varais de poesia, tudo isso. Tem que ser prazeroso.
O que não dá pra fazer é prova de poesia.

TIGRE " Os versos de "O próximo Século" (Debaixo do tapete voador, 1997 / Poemas pra
ler num pulo
, 2009) trazem pros leitores uma questão intrigante:

"O que será dos futuros poetas
que não se embalaram no colo
das cadeiras-de-balanço?"

Que resposta tu mesmo darias para essa "tua" pergunta?

LEO - Este é um caso engraçado. Quando eu primeiro publiquei este poema, em 1997, o próximo
século estava chegando e era um poema nostálgico e triste, marcado pela morte dos meus avós e a
cadeira de balanço, no colo da qual ouvi muitas histórias, charadas, adivinhas. Doze anos depois, o
primeiro livro saiu de catálogo e eu incluí o mesmo poema no livro Poemas pra ler num pulo,
sem mudar o título. Para mim, não tem mais esse tom nostálgico, me parece mais irônico, agora. Fugi
à sua pergunta, porque acho que não tenho resposta. Mas quero dizer que não sou passadista e
vejo muita poesia brotando por aí, nos blogs e twitters da vida. Por sinal, eu uso minha página no
twitter (www.twitter.com/frase_e_verso) justamente pra publicar pequenos poemas, frases,
pensamentos, comentários, palíndromos e outras bobagens divertidas. Convido todos a conhecer.

TIGRE - A poesia pode mudar a vida de alguém?

LEO - Claro que sim. Como dizem na minha terra: se não matar, engorda.


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