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Leo Cunha - Literatura infanto-juvenil
Desde: 22/12/2003      Publicadas: 217      Atualização: 28/05/2015

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 Fortuna Crítica

  02/08/2005
  2 comentário(s)


Apresentação de Leo Cunha para o Prêmio SM

Em 2005 fui eleito pela AEI-LIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil) como o candidato da entidade ao Prêmio Iberoamericano de Literatura Infantil, promovido pelas Edições SM.

Leia na íntegra o texto de apresentação da minha candidatura

Leo Cunha é um dos mais representativos escritores da chamada geração 90 da literatura infantil e juvenil brasileira. O termo "representativo", aqui, deve ser tomado ao pé da letra : ele é quem melhor representa sua geração, não apenas porque seu texto expressa os elementos característicos da literatura produzida na época, mas porque os utiliza de maneira única e original.


Duas gerações marcantes na LIJ brasileira


Com raras exceções, escritores não costumam levar em conta definições acadêmicas " ou a falta delas " para produzir suas obras. Mas é inegável que a visão que têm de sua arte, ou seu ofício, está refletida em sua produção. E isso esteve bem claro na chamada geração "filhos de Lobato", formada por um grupo coeso que, na década de 70, retomou o potencial libertário da literatura para crianças inaugurado pelo escritor e editor paulista.


Embora com estilos muito diferentes, Sylvia Orthof, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Ziraldo, Joel Rufino dos Santos, Lygia Bojunga, Bartolomeu Campos Queiróz, Luiz Raul Machado, Fernanda Lopes de Almeida e outros trouxeram uma liberdade política e estética ímpar para a literatura infantil brasileira na década de 1970.


Bem alimentados por uma bateria de convicções que ia desde "a imaginação no poder", até o "é proibido proibir", calejados na luta contra a ditadura, alguns impedidos de exercer suas profissões, encontraram na literatura infantil o espaço onde exercer o "pourquois pas?" que então incendiava as artes discursivas " o teatro, o cinema e na época também a MPB.


Passados vinte anos, a geração surgida na década de 1990 encontrou um panorama bastante diferente. Se, no plano político, a democracia está consolidada, uma nova ditadura afeta diretamente a produção artística: a ditadura do mercado, tal como a conhecemos desde os anos 90, aquela que estabelece padrões e embota a ousadia. Pressionada pelas fórmulas fáceis, por um lado, e por parâmetros didáticos que determinam o empobrecimento da linguagem, por outro, a nova geração enfrenta novos desafios " e o principal deles é a liberdade para usar a palavra em seu pleno sentido estético e político.


Para enriquecer este desafio, os escritores lançados na década de 1990 encontraram um corpo de autores infantis consagrados nas décadas anteriores, mas ainda em pleno vigor produtivo, o que permitiu, pela primeira vez na história da LIJ brasileira, uma espécie de intertextualidade viva, de jogos de influências em tempo real. É o próprio Leo Cunha que aborda esse assunto em entrevista concedida ao site Doce de Letra.


"Mesmo os vários autores que não influenciaram meu estilo ou temática, me influenciaram no sentido de eu ler e saber: olha, isso se pode fazer. Aí entra todo mundo, entra Ruth Rocha, entra Ana Maria Machado, entra Fernanda Lopes de Almeida, entra Joel Rufino, Orígenes Lessa, Ziraldo, essa turma toda. Você pode até não pegar elementos deles no meu estilo, mas quando fui escrever, eu já tinha lido esses autores e sabia: eles já fizeram isso, eles já quebraram essas paredes, já quebraram esses tabus. Isso é fantástico, a nossa geração já encontrou esse corpo de vinte, trinta anos de literatura produzida mais consistentememente nas décadas de 70 e 80".


Desafios da originalidade


É, portanto, a partir do diálogo com a melhor literatura produzida no Brasil que Leo Cunha constrói sua obra. Não por acaso, seu livro de estréia, Pela estrada afora, fala da relação de um menino com sua avó e homenageia aqueles que o precederam. Premiado como Autor Revelação do Ano, em 1994, pela Câmara Brasileira do Livro, o autor traçou quase que sua profissão de fé, ao reconhecer-se como parte de uma linhagem que se estende no tempo, como alguém construído a partir de suas memórias e referências.


É no segundo livro, Lições de girafa, que Leo Cunha afirma suas possibilidades expressivas. E parte para o extremo oposto do memorialismo. Uma fictícia turma do ensino fundamental precisa produzir textos a partir do animal preferido, eleito a partir de uma visita ao zoológico. É a girafa o tema escolhido. Nada mais concreto. Todos conhecem muito bem o referente ao qual se devem reportar. No entanto, a partir do mesmo objeto, cada aluno produz um texto. São poemas, textos críticos, humorísticos, descritivos, que mostram as inúmeras possibilidades da linguagem de transformar a realidade.


Bastariam esses dois livros inaugurais para definir a obra de Leo Cunha. Aí já estão expostos os principais elementos que balizariam sua produção literária: a História como referência e a linguagem como espaço privilegiado da inventividade e da comunicação.


Esta última característica conduz a obra de Leo Cunha a um intenso diálogo com a poesia. Mesmo em seus textos em prosa, o apuro formal e o cuidadoso tratamento dado à linguagem estão presentes. É o que podemos ver, por exemplo, no trecho abaixo, retirado da fábula O sabiá e a girafa:


Dias de sonhos rasantes, noites de sono arrasado. Mas ele, ressabiado, teimava em assobiar. Dorremifava macio, no galho ou na bacia, o desejo de avoar.
Um dia, o sabiá dizia, um dia eu consigo avoar.

O livro foi saudado pela crítica Laura Sandroni como um "texto muito trabalhado em que as freqüentes aliterações exibem a sonoridade do idioma". Da mesma maneira, Graça Monteiro Castro observa que "O texto de Leo Cunha transborda poesia e metáforas em torno das limitações da condição humana". E Leny Werneck, no site literário francês Citrouille, ressalta que "O charme deste livro vem de um certo ritmo onde a língua falada vira escritura poética".


O domínio da palavra fica ainda mais evidente em sua obra seguinte, Em boca fechada não entra estrela. Dele, disse o crítico Edmir Perrotti, na Revista Nova Escola:


"A história da menina que assusta os pais com sua mania de falar com as estrelas é composta com cuidados de ourives, repleta de aliterações, cadências ('E o bate-papo batia, até o sono bater'), rimas, jogos metalingüísticos ('Mal a noite caía " só tinha tropeçado - e Guta lá ia embora'). Além disso, reserva no final uma surpresa deliciosa, deixando evidente a compreensão lúdica que o autor tem da palavra literária".


Na mesma linha, a materialidade e a plasticidade da palavra são as verdadeiras protagonistas de O menino que não mascava chiclê, narrativa em versos que conta a história de um menino rejeitado pelos colegas por não gostar de "chicletar chiclê". A partir de um interessante jogo de palavras entre "chiclê" e "clichê", Leo Cunha constrói um texto capaz de modificar, questionar e reinventar palavras gastas pelo uso e expressões esvaziadas de sentido pela repetição.


Esta tendência será aprofundada em Clave de Lua, onde o poema "A batucada do tatu" utiliza a palavra "tatu" apenas como pretexto para reproduzir, por meio da sonoridade das consoantes, o ritmo da batucada, sem mais nenhuma relação com o referente-bicho, pura pesquisa de sensorialidade " quase pura brincadeira, coisa que encanta a todos os seus pequenos leitores.


A busca radical das possibilidades plásticas da palavra, no entanto, não deve ser confundida com mero esteticismo. Além do permanente diálogo com a literatura " mais claramente expresso em livros como Joselito e seu esporte favorito, Cantigamente e Poemas Lambuzados, cujas referências são claramente declinadas " Leo Cunha usa o humor, o alto poder de comunicação de seu texto e um agudo senso crítico para refletir sobre a realidade, características percebidas por Virgínia Heine, ao falar de Nas páginas do tempo no Brazilian Book Magazine:


"São crônicas que falam de um homem atento ao seu tempo, ao seu país, à sua subjetividade. Com conteúdo de cunho social e humano, as crônicas são bem humoradas, oscilando entre o sarcasmo e a ironia."


Ao lado das crônicas, alguns de seus textos em prosa, como A menina na varanda, apresentam temas de extrema atualidade, como a noção de alteridade e o respeito aos diferentes pontos de vista. Leo Cunha utiliza o alto poder comunicacional de seu texto para apresentar ao pequeno leitor questões de alta complexidade, sem jamais reduzi-las ao aspecto pedagógico ou empobrecê-las por meio de explicações fáceis e desprovidas de sutiliza.


Por todos esses motivos, Leo Cunha apresenta-se como o mais completo escritor de sua geração " aquele capaz de representar as inquietudes e desafios que pertecem a todos os autores, de todas as épocas. Aquele que precisa experimentar todas as possibilidades expressivas do texto escrito, todas as dimensões do pensamento verbal, todos os caminhos da reflexão, da emoção e da brincadeira.

Rosa Amanda Strausz






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