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Leo Cunha - Literatura infanto-juvenil
Desde: 22/12/2003      Publicadas: 217      Atualização: 28/05/2015

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 Fortuna Crítica

  16/08/2007
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Olha, mãe, uma cor voando!

Reproduzo aqui o artigo do escritor e pesquisador Luiz Bras, sobre a minha obra.

Texto publicado originalmente no site Cronópios e, em versão resumida, na revista Panorama Editorial (nº 33), da CBL.

Olha, mãe, uma cor voando!OLHA, MÃE, UMA COR VOANDO!

Foi o que a garotinha disse para a mãe, ao ver pela primeira vez uma borboleta. Quem conta essa deliciosa história é o escritor Leo Cunha, no seu Manual de desculpas esfarrapadas.


Uma cor voando. Um cheiro indo ao cinema. Um som tomando banho. Um sabor andando de skate. Uma carícia telefonando para a amiga. Para uma criança pequena os nossos cinco sentidos têm vida própria e gostam de brincar com as cores, os cheiros, os sons, os sabores e os toques. Mas fenômenos como esses costumam ocorrer também com os adultos, sempre que desligamos a maquininha da razão e momentaneamente voltamos a experimentar o mundo como se fosse pela primeira vez.


Muito já se escreveu sobre a relação lúdica e mágica que sempre se estabelece entre o leitor pequeno e certos livros a ele endereçados, quando finalmente se encontram e desse encontro escapam fogo e faísca. Relação tão mais lúdica e mágica quanto mais inventivo e provocativo for o livro que o pequeno leitor estiver lendo. Também muito já se escreveu sobre a relação igualmente lúdica e mágica que sempre se estabelece entre o leitor adulto e certos livros a ele endereçados, quando finalmente se encontram e desse encontro escapam fogo e faísca. A maneira positiva e até mesmo a maneira negativa como certas obras são recebidas pelo público a que são destinadas interessa não só à teoria da recepção mas também à história da literatura, à sociologia, à psicologia, à filosofia e a tantas outras disciplinas do conhecimento humano. Porém não tenho notícia de nada escrito sobre a relação lúdica e mágica que sempre se estabelece entre o leitor adulto e certos livros escritos para as crianças ou para os jovens, quando finalmente se encontram e desse encontro existencial escapam fogo e faísca. Adultos saboreando livros infantis e juvenis é algo que parece não interessar a muita gente, mesmo que o prazer provocado por essa leitura seja tão intenso quanto o prazer provocado pela leitura do mais refinado romance do momento. Adultos saboreando livros infantis e juvenis é algo geralmente aceito com leve impaciência. É algo que, por pertencer à coleção de pequenas excentricidades que todos nós cultivamos ao longo da vida madura, pode muito bem ser tolerado pelos amigos e pela família, desde que não fuja do controle e não vire mania ou fetiche. C. S. Lewis parece não ter sido levado a sério quando disse certa vez que "uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim".


A metódica investigação racional do efeito que certos livros provocam em determinado tipo de leitor pode às vezes ser algo muito empobrecedor. O método científico, próprio dos estudos literários, ao trabalhar com as definições rigorosas e a catalogação da informação, está sempre em busca dos resultados claros e objetivos que revelem a verdade de seu objeto de estudo. Mas, se na maior parte do tempo esses resultados conseguem realmente moldar e iluminar o mundo, vez ou outra eles chegam engessados e sem brilho. A própria divisão entre literatura adulta e literatura infanto-juvenil proposta pela análise literária, quando cai em mãos pouco hábeis (as do senso comum, por exemplo) acaba provocando a maior confusão e reproduzindo os preconceitos mais antigos. Seja nas escolas seja nas livrarias, é claro que essa divisão tem sido muito útil, ao organizar e facilitar a rotina do professor, do livreiro e do leitor. Circular pelas ruas e pelas avenidas de um mercado editorial tão prolífico como o nosso fica muito mais fácil se o caminho estiver amplamente sinalizado: livros para crianças aqui, livros para jovens ali, livros para adultos acolá" Mas o efeito colateral dessa sinalização simplificadora é desanimador: ela apaga a possibilidade da produção de certas sensações " isso mesmo, sensações " pouco conhecidas. Falo de certas sensações que a literatura adulta já não consegue mais despertar, se é que um dia chegaram a despertar. Por exemplo, a sensação incomum que despertaram em mim os poemas e as narrativas de Leo Cunha, literatura de um autor que eu só vim a conhecer recentemente, a partir da leitura do Manual e de Perdido no ciberespaço.


A sensação incomum que os poemas e as narrativas do autor mineiro provocaram em mim é algo difícil de ser traduzido em palavras. Dizer que os livros de Leo Cunha têm o poder de acordar a nostalgia, sim, talvez esse seja um jeito meio torto de as palavras chegarem perto do que estou querendo expressar. Nostalgia, delicadeza, candura. Esses três vocábulos, assim, soltos, fazem bastante sentido" Outro vocábulo importante é esperança. Mas eu logo tendo a diminuir sua importância, ao falar especificamente da obra de Leo Cunha. Porque a esperança não fica restrita a essa obra, ela é uma das balizas fundamentais de toda a literatura escrita para as crianças e os jovens. Aliás, se as classificações são mesmo inevitáveis, a presença ou a ausência da esperança no final de um livro também pode ser um bom critério no momento de se classificar esse livro. Mais do que a simplicidade ou a complexidade do vocabulário ou do enredo, aí está a essência " será que ainda é possível falar em essências, num mundo de sensibilidade tão cambiante? ", por exemplo, do romance juvenil: nele a esperança jamais é sacrificada no final. Em termos de complexidade vocabular ou narrativa, O senhor dos anéis, de Tolkien, e Harry Potter e a Ordem da Fênix, de Rowlling, são muito mais complicados do que 1984, de Orwell, e o Admirável mundo novo, de Huxley. Mas o final trágico destes dois e o final esperançoso daqueles dois acabam definindo tipos diferentes de leitor.


Seja nos Poemas lambuzados ou na Clave de lua, seja Na marca do pênalti ou n"A menina da varanda, o toque específico da literatura de Leo Cunha, a característica que distingue essa literatura da literatura de outros autores, não está na forma. Não é o jeito como ele organiza os versos, as aliterações ou as rimas nos poemas, nem a maneira como ele organiza as personagens, o narrador e o enredo na prosa. Seu momento individual não está na linguagem, mas no jeito como ele organiza o conteúdo semântico em cada peça literária. No plano formal Leo Cunha utiliza o mesmo repositório usado com eficiência por Mario Quintana, Manuel Bandeira, Sylvia Orthof, José Paulo Paes e outros da mesma linhagem. A diferença está no plano semântico, no conteúdo coloquial até mesmo das mensagens em que predomina a função poética " os trocadilhos e os jogos de palavras " e no que o autor diz diretamente aos leitores, sem recorrer a grandes efeitos literários. Aliás, em todos os seus livros Leo Cunha também se individualiza ao propor aos leitores que a literatura não precisa ser assunto apenas de especialistas, bastando para isso que ela deixe de lado esses grandes efeitos literários. Ou seja, o autor propõe que a literatura não é uma inalcançável atividade de eleitos e, se quiser, com um pouco de prazeroso esforço todo leitor pode fazer o que ele faz. Suas estratégias criativas são coordenadas ora pelo delicado senso de humor ora pela singela visão de mundo que subtrai de tudo o que existe o peso e a sombra, ficando apenas com a leveza e a luminosidade das coisas e dos eventos. Como se a esperança, que precisa obrigatoriamente coroar toda obra produzida para as crianças e os jovens, não se restringisse apenas a algumas páginas finais, mas à obra toda. Nos livros de Leo Cunha a esperança de fato transborda de cada verso, de cada período, diria até de cada palavra. Nesses livros não existem sequer o medo, a insegurança ou a angústia passageiros, que outros autores costumam provocar nos seus leitores ao trabalhar, mesmo que superficialmente, com o lado perverso e cruel da vida.


A nostalgia, a delicadeza e a candura desabrocham desse transbordamento inconsciente. Digo inconsciente na medida em que esse transbordamento não me parece ser o resultado de uma calculada e meditada estratégia literária, mas de uma conduta natural do espírito criativo. Das três manifestações emocionais citadas, a nostalgia, potencializada pela delicadeza e pela candura, atinge com mais intensidade o leitor adulto. Enquanto no leitor mais jovem essa nostalgia é sempre a saudade de experiências, épocas e lugares que não foram vividos " de experiências, épocas e lugares tornados verdadeiros por meio da fantasia ", no leitor adulto ela é a saudade de experiências concretas e imaginárias. É a saudade suave de algo mestiço, feito de fatos reais mas extintos, pertencentes ao passado do leitor, mesclados com fatos imaginários mas ainda vivos, criados pela fantasia da criança que jamais deixou de habitar o adulto. Uma cor voando passa a ser então uma nova e ao mesmo tempo antiga manifestação do mundo e do sujeito.


A sensação incomum que despertaram em mim os poemas e as narrativas de Leo Cunha não poderia ser despertada pelos poemas e pelas narrativas de um autor de livros adultos. Como de fato até hoje ela jamais foi despertada por um autor de livros adultos. São campos diferentes da sensibilidade literária. A boa literatura produzida para ser consumida exclusivamente por leitores adultos tem grandes poderes, mas sua função é provocar e inquietar, e isso ela faz com extrema competência. Até mesmo a prosa sensível e delicada de, por exemplo, Gabriel García Márquez ou a poesia igualmente sensível e delicada de Manuel Bandeira trazem certos momentos provocativos e inquietantes. Até mesmo essa literatura da delicadeza abre mão aqui e ali da esperança para mergulhar na melancolia e no desassossego.


O tipo de nostalgia que ela produz é de outra natureza: é suave, sim, porém sombrio. Camuflado, dissimulado e invisível, mas eternamente presente, o lado perverso e cruel da vida está sempre aí, até mesmo nas cenas mais pacíficas e comoventes. Dessa constatação é possível passar para a conclusão seguinte, que põe em xeque a tal sinalização simplificadora (literatura adulta, literatura infanto-juvenil) sobre a qual eu falava no início. Refiro-me à conclusão de que certas sensações incomuns só são possíveis quando o leitor adulto atravessa a fronteira imposta pelo consenso racionalista e descobre, encantado, que muitos livros escritos para as crianças e os jovens têm o poder de despertar a nostalgia mestiça. Essa surpreendente espécie de nostalgia que, filha da semântica transparente e da candura do sujeito lírico (nos poemas) ou do sujeito narrativo (na prosa), é capaz de juntar o passado e o presente por meio da esperança pura. Por meio da inocência das representações afetuosas, sempre bem-humoradas, jamais ingênuas ou afetadas.


Luiz Bras é escritor e professor, autor de Bia Olhos Azuis, Nosso gato desbotado, Dias incríveis e Pituca e a chuva, todos em parceria com Tereza Yamashita.





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