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Leo Cunha - Literatura infanto-juvenil
Desde: 22/12/2003      Publicadas: 217      Atualização: 28/05/2015

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 Opinião

  24/12/2003
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Nick Hornby, um torcedor de alta fidelidade

Artigo sobre o livro "Febre de Bola", de Nick Hornby, um dos meus preferidos autores-pop, que também escreveu "Alta Fidelidade" e "Um grande garoto", entre outros.

Nick Hornby, um torcedor de alta fidelidadeÀ medida que lia "Febre de Bola", fui marcando as páginas que a meu ver traziam reflexões originais, relatos bem tramados, descrições inesperadas. Desisti da idéia antes da metade do livro, quando percebi que quase todas as páginas estavam marcadas.

Nick Hornby escreveu esta saborosa autobiografia com um prazer e uma paixão óbvios, centrada num assunto que ele conhece bem: o futebol, ou, mais especificamente, o torcedor fanático. Mas isso não bastaria para fazer um livro memorável. O que garante ao leitor o mesmo prazer e paixão, o que deixa a gente triste quando o livro acaba, é o estilo do autor, ao mesmo tempo mordaz e afetuoso.

Hornby expõe seu cotidiano como torcedor do Arsenal, desde a infância até os trinta e poucos anos. Um cotidiano feito de esperanças, alegrias, frustrações e... algo mais: a tal "febre da bola". O torcedor "febril" corresponde ao que chamamos no Brasil de "doente", aquele que leva a paixão clubística a níveis absurdos e constrangedores.

O "febril" tem a plena convicção de que futebol não é diversão, não é "apenas um jogo": é quase sempre angústia e sofrimento. Reconhece a beleza do "futebol-arte", mas dá mais valor ao empenho e à luta. Prefere ganhar jogando mal do que perder dando show de bola. Assiste a absolutamente todos os jogos que o time fizer em casa e a muitos no estádio adversário. É capaz de perder o casamento de um amigo se a data coincidir com um jogo, mesmo amistoso. Assiste às partidas em pé, no setor mais barulhento da torcida, gritando e cantando até nas derrotas.

Nenhuma campanha ruim é capaz de afastá-lo dos estádios, pelo contrário: ele sente até uma pontinha de prazer neste sofrimento ao vivo, já que atesta sua fidelidade. Desdenha profundamente o "torcedor de pijama", que só aparece quando o time é líder, ou nas rodadas finais. Cria superstições absurdas, como sempre assistir aos jogos com a mesma roupa, ou comendo o mesmo biscoito, pois isso "dá sorte" ao time.

É assim o Nick torcedor. Num jogo crucial, num lance de extrema emoção, sua namorada desmaia e ele não consegue socorrê-la, prefere assistir ao restante da partida. "Pouco tempo antes eu lera A mulher-eunuco, livro que me causara uma impressão profunda e duradoura. Ainda assim, como é que eu podia ficar mobilizado pela opressão das mulheres se elas não conseguiam nem ficar em pé durante os últimos minutos de uma disputa desesperadamente acirrada?"

Um título nacional, ganho no último minuto e após 18 anos sem conquistas, é comparado a um orgasmo. "O orgasmo, embora obviamente prazeroso, é familiar, passível de repetição (duas horas depois, se você come bastante verduras) e previsível, principalmente para os homens - se você está fazendo sexo, já sabe o que está por vir, digamos. Talvez se eu tivesse ficado 18 anos sem fazer amor e renunciado à esperança de fazê-lo nos 18 anos seguintes, e aí de repente, sem mais nem menos, uma oportunidade se apresentasse... talvez nessas circunstâncias fosse possível recriar aproximadamente aquele momento."

Por outro lado, a febre de bola não tem, necessariamente, efeitos colaterais como o comportamento violento ou preconceituoso. Como diria Cazuza, um torcedor como Hornby não pode causar mal nenhum, a não ser a si mesmo. Tanto que é um crítico veemente das brigas, do vandalismo e do racismo que marcam uma parcela da torcida inglesa.

Neste aspecto, o capítulo "Juventus X Liverpool", jogo em que os hooligans ingleses causaram a morte de 38 torcedores italianos, é tocante e revelador. Nick, na época professor de inglês para estrangeiros, assistiu ao jogo pela TV, cercado de alunos italianos. "Não sei como eu teria me sentido assistindo ao jogo em casa. Sei que teria sentido a mesma raiva que senti, o mesmo desespero e a mesma vergonha terrível e abjeta, mas duvido que tivesse sentido o mesmo impulso de pedir desculpas, de novo, de novo e de novo, embora talvez devesse ter sentido.(...) A surpresa foi aquelas mortes serem causadas por algo tão inócuo quanto uma correria, prática em que metade dos torcedores juvenis do país vinha incorrendo e que tencionava apenas assustar os adversários e divertir os corredores. Os torcedores do Juventus não sabiam disso, no entanto, e por que deveriam saber? Não possuíam o intrincado conhecimento do comportamento das multidões inglesas que o restante de nós havia absorvido quase sem notar. Quando viram uma horda de hooligans ingleses correndo aos berros na sua direção, entraram em pânico e saíram correndo para a borda de seu recinto. Um muro desabou e no caos que se seguiu as pessoas morreram esmagadas (...) Acho que é por isso que me senti tão envergonhado pelos acontecimentos daquela noite. Sabia que os torcedores do Arsenal poderiam ter feito o mesmo, e que se o Arsenal estivesse jogando no estádio de Heysel naquela noite eu certamente estaria lá; não estaria brigando, nem correndo na direção das pessoas, mas com certeza estaria fazendo parte da comunidade que gerava esse tipo de comportamento."

Em outro momento, Nick se irrita com um grupo de torcedores brancos que está importunando um jogador negro. "Quem já viu John Barnes, um homem bonito e elegante, jogar futebol, dar uma entrevista ou simplesmente entrar em campo, e também já ficou ao lado dos orangotangos balofos e bufantes que fazem coisas como atirar bananas e imitar macacos, pode apreciar a deslumbrante ironia contida nisso (...) E às vezes, quando um jogador negro adversário comete uma falta, perde um gol feito, não perde um gol feito ou discute com o árbitro, você que é liberal fica lá sentado em pânico, tomado por pressentimentos sombrios. ´Por favor, tomara que ninguém diga nada, por favor, não estraguem tudo para mim.´ (Para mim, é bom notar, e não para o coitado do sacana que tem de jogar a poucos metros de um fascista malévolo armado até os dentes; tal é a autopiedade indulgente do livre-pensador moderno.)"

A habilidade de Hornby em descrever e analisar sua febre de bola garante a autenticidade e o humor da narrativa. Com uma cruel auto-ironia, ele admite o ridículo de muitas de suas atitudes e manias, mas sabe que faria tudo outra vez. E, ao se expor de forma tão sincera, consegue criar um personagem universal. Mesmo quem odeia futebol e nunca pisou num estádio vai reconhecer aquele comportamento obsessivo. Ou se identificar com aquelas rotinas e cismas.

Mas, ao contrário do que possa parecer, "Febre de bola" vai muito além do futebol. Apesar de cada capítulo começar com a data de um jogo (começando com Arsenal X Stoke City, 14/9/68 e terminando com Arsenal X Aston Villa, 11/1/92), o livro não é um mero diário de torcedor. Hornby, aliás, garante que nunca anotou nada sobre as mil e tantas partidas que assistiu desde a infância. Escreveu o livro inteiro no início da década de 90, baseando-se totalmente em sua memória afetiva.

Cada partida serve de gancho para o autor comentar um aspecto de sua relação obsessiva com o futebol, mas também para abordar outros assuntos. Neste sentido, o livro pode ser lido como uma coletânea de crônicas e se aproxima de "À sombra das chuteiras imortais", em que cada jogo é o mote para Nelson Rodrigues discutir o Brasil, os brasileiros, nossos costumes, valores e sentimentos. Para Hornby, os jogos remetem a lembranças da infância e adolescência ou a reflexões sobre família, amizades, amores, educação, política, democracia, justiça, arte.

Outra questão essencial, que perpassa toda a narrativa, é a do amadurecimento, a complexa passagem da infância para a adolescência, e depois a busca da identidade adulta, de uma carreira, de uma companheira. E aqui o livro se aproxima de "Alta Fidelidade", livro seguinte de Hornby. Em "Febre" o amadurecimento e a busca de identidade são filtrados pelo futebol, em primeiro lugar, e pela vida familiar. Em "Fidelidade", os filtros são a música pop e a vida amorosa.

Em ambos a prosa de Hornby apresenta suas marcas distintivas: personagens bens construídos, complexos e obsessivos, um texto fluente sem ser banal, inteligente sem ser paternalista, sarcástico sem ser apelativo, e uma incrível capacidade de olhar com simpatia o lado patético da vida cotidiana.




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