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Leo Cunha - Literatura infanto-juvenil
Desde: 22/12/2003      Publicadas: 217      Atualização: 28/05/2015

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 Opinião

  23/12/2003
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O autor e a escola

Artigo publicado originalmente no site Asa da Palavra, da minha amiga baiana Lena Lois.

O autor e a escolaUm mineiro muito conhecido já cantou e disse: todo artista tem de ir aonde o povo está. Será que isso vale também para os autores de livros infantis? Em outras palavras, quem faz literatura infantil precisa do contato direto com as crianças? Deve ter este contato direto? Já ouvi grandes escritores, como Lygia Bojunga Nunes e Bartolomeu Campos Queirós, afirmarem que não buscam este contato. Sei também outros autores importantes que faziam, ou fazem, questão do contato, como Sylvia Orthof e Rosa Amanda Strausz.

A questão é interessante e parece estar relacionada com as duas tendências que a própria Rosa Amanda apontou em seu artigo “Literatura infantil segue novos rumos” publicado em 2001. O artigo aponta duas grandes vertentes na literatura infantil brasileira atual. A primeira seria mais centrada na expressão do autor (Rosa chama estes autores de “filhos de Bartolomeu”) e a segunda seria mais voltada para a comunicação com o leitor (para Rosa, são os “irmãos em Orthof). Trata-se de uma simplificação, evidentemente, mas parece que a tendência é mesmo a de que o segundo grupo, até mesmo por sua grande preocupação em “comunicar”, nutra mais freqüentemente o hábito de “trocar idéias” com os leitores mirins.

Mas, se no momento mesmo da criação da obra literária, este diálogo nem sempre é visto como necessário, como se viu acima, eu me atrevo a dizer que ele é importantíssimo, quase indispensável, em um momento seguinte: aquele em que o livro já foi lançado e lido pela criança. O diálogo entre autor e leitor, quando acontece, quando é possível, acrescenta muito para ambos os lados. E o local mais propício para que isso ocorra, ao que me parece, é a escola.

Para o autor, é a oportunidade de ver, nos olhos da meninada, o efeito de seu livro. Ouvir, de suas bocas, as emoções, inquietações, dúvidas que foram provocadas pelo livro. Descobrir leituras curiosas, interpretações inesperadas. Conhecer desdobramentos que a obra propiciou, recriações, jogos, dramatizações.

Para a criança, é a chance de descobrir que o autor é um sujeito comum, vivo, de carne e osso, quase sempre de óculos, quase nunca de bengala. Mais do que isso, ouvir da boca do autor que ele também erra, tem dúvidas, às vezes não consegue terminar uma história, precisa reler o texto várias vezes, reescrever outras tantas. Superar o mito do escritor excêntrico, iluminado, infalível, instantâneo, vitaminado, só isso já valeria o semestre para os alunos e para a escola.

No meu caso particular, tenho livros publicados por cerca de dez editoras, o que implica em variados convites para ir a escolas, conversar com alunos e professores, dar oficinas, etc. Aceito quase todos estes convites. Aliás, não só aceito, como gosto muito de ir.

Mas sempre faço uma (e única) exigência: que a turma já conheça o meu trabalho, que tenha lido ao menos um dos meus livros. Senão acaba acontecendo uma cena que é ao mesmo tempo incômoda para o autor e anti-pedagógica para os alunos. É quando as crianças tratam o escritor como uma espécie de celebridade, alguém “famoso” que foi visitar a escola. Seria o mesmo que receber em sala um craque da seleção, o galã da novela, o big brother da vez.

Como eu não faço o estilo showman, não tenho grandes talentos teatrais nem musicais, os alunos provavelmente ficarão frustrados, se estavam na expectativa de "um encontro com a estrela". Nestes casos, geralmente, os alunos têm pouca coisa de relevante para perguntar, e não é por culpa deles.

Muito diferente é o que ocorre quando os alunos conhecem meus escritos. Na realidade, se alguma coisa tem importância e relevância para a formação daquela criança, essa coisa é a minha obra. É sobre ela que a conversa deve girar. Sobre as histórias e poemas, os personagens e a narrativa, a linguagem e as rimas, sobre as surpresas, os risos e as lágrimas.

É claro que, tendo lido o livro, a criança vai continuar tendo curiosidade (talvez até maior) sobre assuntos pessoais, e eu não tenho o menor problema em responder essas questões. Mas elas devem ser um complemento para a conversa, e não o principal.

Os alunos já me fizeram as perguntas mais inesperadas: você assina Playboy? seu carro é do ano? você já comeu carne de jacaré? você é virgem? você já foi no Faustão? você conhece o Ziraldo? Se essas perguntas surgem no meio da conversa sobre os livros, ótimo, acho a maior graça e respondo com prazer. Mas se eu chego a uma escola e só ouço esse tipo de pergunta, com certeza vou sair de lá achando que desperdicei o meu tempo e o das crianças.

Abrindo parênteses (ou talvez um link), queria sublinhar que adoro o ambiente escolar. Tanto que nunca consegui sair da escola. Depois do segundo grau, fiz três cursos superiores, uma especialização, um mestrado, e, antes mesmo de terminar este último, comecei a dar aulas no curso de Jornalismo do UNI-BH. A escola sempre me pareceu um espaço muito vivo, alegre, cheio de curiosiades, mistérios e emoções. Contribuiu muito para isto, com certeza, a série de livros da “Turma do Gordo”, do escritor João Carlos Marinho. Sempre fui apaixonado por estes livros, a ponto de reler umas dez vezes “O Caneco de Prata”. Para a turma do Gordo, a escola é sempre sinônimo de prazer, paixão, diversão, mistério. Não é por acaso que muitos dos meus livros se passam totalmente ou parcialmente nas escolas, como “Na marca do pênalti”, “Joselito e seu esporte favorito”, “Conversa pra boy dormir”, “Pela estrada afora”, “As pilhas fracas do tempo”. Estar em uma escola é sempre, para mim, uma fonte de inspiração. Fechando o link.

Mas bom mesmo é quando eu descubro, na visita (ou por carta, ou via email, já que nem sempre o contato com as escolas é “presencial” - com o perdão da palavra metida a besta), enfim, quando eu descubro uma escola onde o livro de literatura não é um mero dever de casa, uma obrigação, uma matéria a mais. Nessas escolas a literatura (e a arte em geral) é um prazer, uma descoberta, uma janela aberta para um mundo incrível de emoções, risos, surpresas e imaginação. Não é assim o sonho de qualquer criança?

*A foto acima é de um trabalho feito pelos aluno do Catavento (São João del Rey), a partir do meu livro "Debaixo de um tapete voador".



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