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Leo Cunha - Literatura infanto-juvenil
Desde: 22/12/2003      Publicadas: 155      Atualização: 07/12/2009
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 Opinião
  27/07/2006
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Obra aberta
Artigo sobre o filme "Caché", de Michael Haneke, escrito em parceria com Nísio Teixeira, meu colega no corpo docente do UNI-BH.
Publicado no jornal "Estado de Minas", no caderno "Pensar", no dia 17/06/2006.

Michael Haneke é um cineasta que parece pouco preocupado em entreter e divertir o espectador. Pelo contrário: seus filmes angustiam, perturbam e, quase certamente, põem as pessoas para discutir sua trama, sua lógica, seus personagens. Foi assim com "A professora de piano", que ficou marcado pela performance magistral de Isabelle Huppert. É assim com "Caché", que tem grandes e equilibradas atuações de Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Maurice Bénichou, entre outros. E aqui, contrariando uma regra de ouro da crítica, vamos elaborar a nossa análise contando o final, que, na verdade, importa mais à proposta do que à história do filme. Em todo caso, se preferir, não prossiga a leitura.


A história é aparentemente a de um thriller comum. Georges (Auteuil) e Anne (Binoche) Laurent são um casal francês, culto, de classe média-alta. Um dia começam a receber fitas de vídeo que revelam que sua casa está sendo vigiada. Em seguida o casal e o filho adolescente, Pierrot (Lester Makendonsky), passam a receber, também, uma série de desenhos macabros - pessoas sujas de sangue, bichos de cabeça cortada. A situação configura, cada vez mais, uma ameaça à paz daquela família, especialmente quando as mensagens começam a remexer em episódios traumáticos (mas aparentemente superados) da infância de Georges, em especial o relacionamento com seu irmão adotivo, Majid (Bénichou).


Tão perturbadora quanto a trama é a cena final do filme, ou melhor, o final aberto que ele nos impinge. Poucas vezes estivemos tão próximos, no cinema, daquilo que Umberto Eco chamou de "obra aberta". Um pouco antes do final, uma cena mostra Georges desmoronando, num choro compulsivo. Em seguida ele toma um remédio e sonha com o dia em que foram buscar Majid. A sensação que se tem é de que as próximas cenas esclareceriam enfim o mistério do filme, apontariam os culpados. Mas quem não é culpado nessa história?


A saída de Haneke, ao invés disso, é nos trazer uma cena filmada de longe, em plano geral, e extremamente sutil, em que Pierrot, na escadaria em frente à escola, conversa descontraído com o filho de Majid (Walid Afkir). Este diálogo - que pode passar despercebido para o espectador mais desatento - é a chave do mistério. Ou melhor: é a não-solução do mistério, uma vez que sugere pelo menos três hipóteses diferentes, opostas, e mesmo paradoxais.


A primeira hipótese é a mais maquiavélica. Era Pierrot o responsável pelas fitas de vídeo e pelos desenhos. Sua ação seria uma resposta à negligência, ao descaso, dos pais.
Algumas cenas reforçam esta hipótese. Uma delas é a referência que Pierrot faz a um suposto caso da mãe com Pierre (a semelhança dos nomes não deve ser mera coincidência), amigo do casal, o que é negado por Anne de forma categórica, mas constrangida. Em outra cena, vemos Anne sentada com Pierre, em clima íntimo, quase romântico, com direito a beijinho na mão.


Também parece muito conveniente, para esta primeira hipótese, o sumiço de Pierrot aquela noite, que leva os pais a pensarem imediatamente num seqüestro, e praticamente força Georges a ir à casa de Majid.


A segunda hipótese poderia ser chamada de idealista. A conversa entre Pierrot e o filho do Majid, no final, indicaria uma esperança no futuro. A solução dos conflitos, a tolerância, o diálogo, estaria nas mãos das futuras gerações.
Esta hipótese mais feliz é reforçada pelo passado triste em que o longa toca: a repressão francesa durante protesto de argelinos em outubro de 1961 em Paris e a morte de 400 deles, com boa parte dos corpos sendo jogados no rio Sena, incluindo-se aí, pelo filme, os pais de Majid, empregados dos pais de Georges. Assim, o que seria "uma coisa à toa, uma brincadeira infantil" para Georges, ganha ares muito mais trágicos, nacionais. E, por que não dizer, atualíssimos, dado o problema francês junto aos jovens filhos de migrantes: franceses, mas ainda vistos como estrangeiros.


A cena da bicicleta na saída da delegacia (em que Georges, exasperado, discute com um negro) é outra pedra de toque para esta hipótese. A aliança dos filhos no final pode apontar para uma esperança. Mas... existe ainda uma terceira opção.


Na hipótese mais hitchcockiana, a cena final indicaria que o filho do Majid é mesmo o "perseguidor" e que, após a morte do pai, resolveu continuar sua trilha de vingança, indo agora atrás de Pierrot. O típico vilão hitchcockiano não é oculto, não é um mistério, pelo contrário: é identificado pelo público. Não se trata de descobrir o culpado, mas de acompanhar seus atos, de aguardar, em suspense, os desdobramentos e conseqüências destes atos.


Esta hipótese ganha força pelo fato de o filme ser altamente hitchcokiano. Aliás, uma espécie de "janela indiscreta" ao avesso: temos aqui uma casa vigiada longamente em plano fixo, mas não a vemos pelos olhos do voyeur (como acontece com o fotógrafo vivido por James Stewart no filme Janela Indiscreta) e sim pelos olhos dos vigiados, que assistem às fitas e as comentam, dão pause e rebobinam. É o tema hitchcockiano atualizado para a nossa "era da vigilância". E de uma forma tão avessa que parece que você nem acredita mais na imagem que o filme exibe, mas fica esperando o tira-teima a ser dado pela imagem das gravações em VHS. A princípio, pode ser extemporâneo lançar mão do recurso ao VHS num filme de 2005, em plena era do DVD e das imagens digitais. " mas aí vem outra sacada de mestre do diretor: ao optar por manter a mesma boa resolução técnica na qualidade da imagem apresentada ao público, seja a do filme ou das seqüências de vídeo exibidas, confunde, a princípio, a origem da cena, para reforçar e aprofundar ainda mais o mergulho do espectador na janela indiscreta criada por Haneke.


A optar por esta terceira vertente, poderíamos descartar as outras pistas (o jantar de Anne com Pierre, o sumiço de Pierrot, a coincidência dos nomes, a briga com o negro, etc) como falsas. O que também é uma tática altamente hitchcockiana: Bazin, ao comentar O homem que sabia demais, já destacava o apreço do diretor inglês pelas pistas falsas.


Além do mais, as mesmas razões que justificariam a hipótese idealista podem também, curiosamente, justificar a hipótese hitchcockiana. A fratura da história (do filme e da França) ainda está exposta - apesar de, no fundo, estar... caché! Touché!


Claro que existe também a possibilidade " talvez a mais fascinante " de Haneke ter pensado em deixar abertas as três possibilidades (ou ainda outras), e cada um de nós que se vire pra entender.


De qualquer forma, é um daqueles casos clássicos de filmes que - sejam amados ou odiados à primeira vista - merecem uma segunda sessão para revelar ainda mais cenas ou pistas que ainda podem estar às escondidas.


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