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Leo Cunha - Literatura infanto-juvenil
Desde: 22/12/2003      Publicadas: 217      Atualização: 28/05/2015

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 Opinião

  23/12/2003
  1 comentário(s)


Publicar: verbo cronicamente inviável

Artigo publicado em 2000, sob o impacto do filme "Cronicamente inviável" e do fim da revista "Palavra"

Quem sai do filme "Cronicamente Inviável" não precisa de nenhum argumento a mais para se desencantar com o Brasil. Mas eu dei azar:
a primeira notícia que escutei depois do cinema aumentou ainda mais minha sensação de impotência e espanto com o país. Era o anúncio do fim da revista Palavra.

Para muita gente, podia parecer um fato trivial - mais uma revista que fecha em Belo Horizonte... - mas para mim ele teve uma significação perturbadora. É que a existência - ou a resistência - de uma revista como a Palavra parecia sinalizar uma esperança de
viabilidade pra nossa cultura e pro nosso jornalismo cultural.

Num país menos inviável, as pessoas leriam a Palavra nos bares e cafés, nos ônibus e metrôs, no salão de beleza e nas salas de espera.
Mas não: é a Caras que domina todos estes ambientes. E uma análise atenta mostra que a Palavra é o extremo oposto da Caras.

A Bundas e a Caros Amigos - também imperdíveis, não estou negando - podem parecer, à primeira vista, as verdadeiras antíteses da Caras, a começar pelos nomes, que ridicularizam a revista da Abril, de forma menos ou mais explícita. Mas se a gente for considerar o conceito da revista, o modo como ela entende a cultura, o modo como ela olha para o Brasil, então fica mais claro que a Palavra é a
publicação mais distante da ilha de Caras.

A Caras é uma revista que segue um único eixo: a celebridade, e, mais especificamente, a celebridade referendada pela televisão.
É um olhar absolutamente convergente, para o qual só é "notícia" aquilo que já brilhou na telinha. O povo já conhece, já admira, já inveja, seja o que for, e portanto quer conferir na Caras.

Já a Palavra - como indica o próprio slogan - é uma revista sem nenhum eixo, ou com vários, o que dá na mesma. É uma revista divergente
por natureza. Quer integrar o país mostrando a cada canto o que os outros cantos têm pra mostrar. Minas vendo a Bahia, Pará vendo Goiás, Ceará vendo São Paulo, Rio vendo o Paraná. Sem nenhum aval da TV. O que é muito diferente de padronizar o olhar de todas as regiões, direcionar todo o enfoque para o eixo da antena, do cabo ou do satélite.

Caras pode ser lida como uma interminável coluna social, apostando num mundo onde todos se dão bem e onde as pessoas valem pelo que têm (dinheiro, poder, fama). A obra de Caetano não importa, importa o seu nome. Os gols de Ronaldinho não importam, importa seu saldo bancário. Não há espaço para a celebridade que sofre, que se perde, fracassa, ou está na fossa. Ou melhor, o espaço fica no "pause", esperando o momento em que a mesma celebridade encontre um novo
amor, redescubra a felicidade (de preferência em Nova York ou Paris), volte às paradas.

Para a Palavra, a cultura é quase sempre o contrário. É o que não cabe nem interessa àquele tipo de colunismo social. Em vez do Ibope, a expressão. Em vez da fofoca, a produção. Em pouco mais de um ano,
trouxe várias reportagens memoráveis: Kiko Ferreira destrinchando o esquema do jabaculê, Israel do Vale contando os bastidores do Grupo Galpão, Daniel Barbosa resgatando as origens do Sepultura, Walter Navarro revelando as cores e sombras do Museu da Loucura, Tonico Mercador dialogando com a emocionante Marina Silva, Ronaldo Fraga
com seus ensaios sempre inusitados e surpreendentes, ótimas entrevistas com Marieta Severo, Francisco Iglesias, Lya Luft, isso só pra citar alguns poucos exemplos E o melhor: uma revista com um texto saboroso, solto, puxando às vezes para o humor, outras
para o poético.

Então como entender e aceitar o fim de uma publicação como a Palavra? Dizendo "aqui no Brasil é assim mesmo?" Concordando que o povo gosta é de Caras e ponto final? Jogando a culpa no leitor, no anunciante, no governo? Nas elites, ignorantes por opção? Nas massas, ignorantes por falta de opção? Sinceramente, não consigo responder. Só sei que o verbo publicar anda cada vez mais intransitivo, ou melhor, intransitável, cronicamente inviável.

No final das contas, parece que a Palavra foi calada muito mais por seus méritos do que por seus defeitos. É claro que estes - defeitos,
enganos, lacunas, indefinições - também existiram, mas não é a hora de ficar apontando o dedo. Seria até covardia e mau gosto. E de gosto ruim, na boca, nos olhos e na cabeça, já me dou por satisfeito essa semana.



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