
Edições diferentes de um mesmo livro podem ressaltar qualidades e sutilezas diferentes da obra. No caso do livro "Três gotas de poesia", de Angela Leite de Souza, as duas versões lançadas pela editora Moderna (em 1996 e 2002) levam o leitor a mergulhar quase em dois mundos diferentes.
Claro, o material básico é o mesmo: vinte haicais de Angela. O haicai, como se sabe, é um poema de três versos, que podem ser livres ou seguir uma estrutura mais rígida, obedecendo à regra criada séculos atrás pelos japoneses: o primeiro verso com 5 sílabas métricas, o segundo com 7, o terceiro com 5. Neste livro, Angela opta por seguir a forma tradicional, o que é sempre um desafio a mais para o poeta.
Em termos temáticos, o haicai tende a priorizar a natureza, as paisagens, os animais, as estações, o tempo. Geralmente de uma forma mais descritiva, como uma espécie de fotografia verbal. Angela sintetizou assim o sereno:
Gota de sereno:
lágrima da madrugada
que a folha enxugou.Mas, eventualmente, pode também esboçar uma pequena narrativa, como se fosse um micro-conto.
À toa, à toa,
joaninha abre a capa
de bolinha e voa.Em ambos os casos, o haicai está "impregnado pelo zen-budismo e sua visão de mundo", como sublinha Angela na apresentação do livro.
Mas, se o material poético das duas versões é exatamente igual, as ilustrações (criadas por duas excelentes artistas plásticas, Marilda Castanha e Lúcia Hiratsuka), assim como os projetos gráficos, proporcionam duas leituras distintas, cada uma com seu encanto particular.
A primeira edição, de 1996, com várias reimpressões, ressaltava o aspecto lúdico e divertido presente nos poemas de Angela, bem como o aspecto narrativo. A ilustração de Marilda cria, de maneira mais evidente, alguns personagens, e os põe "em ação": a moça envolta pela chuva (p. 4 e 5); a menina medrosa espiando o gato (p. 6), as vacas fazendo bolas de chiclete (p. 11).
Muitas vezes, como é freqüente no trabalho de Marilda, a ilustradora cria personagens que não existem no texto " ou que estavam apenas subentendidos ", propondo uma narrativa visual paralela e complementar ao texto. É o que se vê, por exemplo, nas páginas 12 e 13: uma praça movimentada, com direito a coreto e música, onde os personagens parecem "assistir" " mais do que participar " aos dois poemas:
Um cachorro late.
Late que quer chocolate
com cachorro-quente (p. 12)
Bem-te-vi! Já vem
chuva! , avisa o passarinho
lá do céu sem nuvem. (p. 13)O humor e a narratividade não estão ausentes, evidentemente, da segunda versão, lançada em 2002 e disponível atualmente no mercado. Afinal, os poemas são os mesmos. Porém as ilustrações e o projeto favorecem o aspecto mais descritivo, mais contemplativo, mais lírico, que também se encontram nos poemas.
Para começar, o formato da nova edição é maior (24 x 17 cm, contra 21 x 14 cm da versão anterior). Não há como não perceber que o tamanho maior, assim como o papel de mais qualidade, mais espesso e brilhante, ressaltam o aspecto plástico do livro. As ilustrações de Lúcia Hiratsuka, feitas na técnica oriental sumiê (a tinta preta, sumi, é pincelado sobre um papel feito de arroz ou outras fibras vegetais), também favorecem esta característica. Com alguma liberdade conceitual, o sumiê pode ser considerado uma espécie de correspondente visual do haicai, na medida em que busca pinceladas rápidas, precisas, singelas, quase "minimalistas
Como explica Lúcia, na apresentação do livro, o sumiê exige "um perfeito domínio do pincel, pois as pinceladas devem ser precisas e sem retoques. Ora com delicadeza, ora com vigor, os traços e as manchas expressam as sensações e as emoções do artista".
Estamos, portanto, num campo mais sensorial, mais emotivo, ao passo que nos desenhos de Marilda estávamos mais próximos de uma interpretação narrativa em diálogo com os poemas.
A diferença fica bem evidente, por exemplo, nas ilustrações que acompanham o poema da página 11 (versão antiga), ou 16 (versão nova)
Tufo de capim
em boca de boi será
chiclete de menta? Marilda criou uma fileira de vacas brincalhonas, de sininho e tudo, soprando imensas bolas verdes de capim-chiclete, sobre uma montanha colorida. Lúcia, em página dupla, apresenta uma vaca feita de poucas manchas, poucos traços e poucas cores, uma vaca zen quase abstrata. São duas belas e quase opostas releituras do mesmo poema.
Outra modificação fundamental da nova versão é o número de páginas, ampliado de 24 para 32. Marilda teve, proporcionalmente, menos espaço para trabalhar, pois o livro trazia um poema por página. Já Lúcia teve a sorte, ou o privilégio, abrir páginas duplas para diversos poemas e, com isso, os haicais de Angela respiram mais e têm mais espaço para voar.
Para professores e bibliotecários, o ideal seria ter em mãos as duas versões do livro. Este material duplo permitiria várias abordagens, reflexões e trabalhos práticos em torno da poesia, do haicai, da relação poema x imagem, do uso das cores, da concepção do objeto livro. Mas como, infelizmente, a versão de 1996 não está mais disponível para venda, o jeito é escarafunchar bibliotecas e sebos para conseguir esta pequena pérola produzida em parceria por Angela e Marilda, e reuni-la com a nova versão, igualmente preciosa, de Angela e Lucia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SOUZA, Angela Leite de. Três gotas de poesia. Ilustrações de Marilda Castanha. São Paulo: Moderna, 1996 (fora de catálogo).
SOUZA, Angela Leite de. Três gotas de poesia. Ilustrações de Lúcia Hiratsuka. São Paulo: Moderna, 2002.