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Leo Cunha - Literatura infanto-juvenil
Desde: 22/12/2003      Publicadas: 217      Atualização: 28/05/2015

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 Opinião

  21/02/2008
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Seis gotas de poesia

Neste artigo, eu faço uma análise comparativa entre as duas versões que a Moderna publicou do livro de haicais "Três gotas de poesia", de Angela Leite de Souza.
Revista Presença Pedagógica nº79, em janeiro de 2008.

Seis gotas de poesiaEdições diferentes de um mesmo livro podem ressaltar qualidades e sutilezas diferentes da obra. No caso do livro "Três gotas de poesia", de Angela Leite de Souza, as duas versões lançadas pela editora Moderna (em 1996 e 2002) levam o leitor a mergulhar quase em dois mundos diferentes.


Claro, o material básico é o mesmo: vinte haicais de Angela. O haicai, como se sabe, é um poema de três versos, que podem ser livres ou seguir uma estrutura mais rígida, obedecendo à regra criada séculos atrás pelos japoneses: o primeiro verso com 5 sílabas métricas, o segundo com 7, o terceiro com 5. Neste livro, Angela opta por seguir a forma tradicional, o que é sempre um desafio a mais para o poeta.


Em termos temáticos, o haicai tende a priorizar a natureza, as paisagens, os animais, as estações, o tempo. Geralmente de uma forma mais descritiva, como uma espécie de fotografia verbal. Angela sintetizou assim o sereno:


Gota de sereno:

lágrima da madrugada

que a folha enxugou.



Mas, eventualmente, pode também esboçar uma pequena narrativa, como se fosse um micro-conto.


À toa, à toa,

joaninha abre a capa

de bolinha e voa.



Em ambos os casos, o haicai está "impregnado pelo zen-budismo e sua visão de mundo", como sublinha Angela na apresentação do livro.


Mas, se o material poético das duas versões é exatamente igual, as ilustrações (criadas por duas excelentes artistas plásticas, Marilda Castanha e Lúcia Hiratsuka), assim como os projetos gráficos, proporcionam duas leituras distintas, cada uma com seu encanto particular.


A primeira edição, de 1996, com várias reimpressões, ressaltava o aspecto lúdico e divertido presente nos poemas de Angela, bem como o aspecto narrativo. A ilustração de Marilda cria, de maneira mais evidente, alguns personagens, e os põe "em ação": a moça envolta pela chuva (p. 4 e 5); a menina medrosa espiando o gato (p. 6), as vacas fazendo bolas de chiclete (p. 11).


Muitas vezes, como é freqüente no trabalho de Marilda, a ilustradora cria personagens que não existem no texto " ou que estavam apenas subentendidos ", propondo uma narrativa visual paralela e complementar ao texto. É o que se vê, por exemplo, nas páginas 12 e 13: uma praça movimentada, com direito a coreto e música, onde os personagens parecem "assistir" " mais do que participar " aos dois poemas:


Um cachorro late.

Late que quer chocolate

com cachorro-quente (p. 12)


Bem-te-vi! Já vem

chuva! , avisa o passarinho

lá do céu sem nuvem. (p. 13)



O humor e a narratividade não estão ausentes, evidentemente, da segunda versão, lançada em 2002 e disponível atualmente no mercado. Afinal, os poemas são os mesmos. Porém as ilustrações e o projeto favorecem o aspecto mais descritivo, mais contemplativo, mais lírico, que também se encontram nos poemas.


Para começar, o formato da nova edição é maior (24 x 17 cm, contra 21 x 14 cm da versão anterior). Não há como não perceber que o tamanho maior, assim como o papel de mais qualidade, mais espesso e brilhante, ressaltam o aspecto plástico do livro. As ilustrações de Lúcia Hiratsuka, feitas na técnica oriental sumiê (a tinta preta, sumi, é pincelado sobre um papel feito de arroz ou outras fibras vegetais), também favorecem esta característica. Com alguma liberdade conceitual, o sumiê pode ser considerado uma espécie de correspondente visual do haicai, na medida em que busca pinceladas rápidas, precisas, singelas, quase "minimalistas


Como explica Lúcia, na apresentação do livro, o sumiê exige "um perfeito domínio do pincel, pois as pinceladas devem ser precisas e sem retoques. Ora com delicadeza, ora com vigor, os traços e as manchas expressam as sensações e as emoções do artista".


Estamos, portanto, num campo mais sensorial, mais emotivo, ao passo que nos desenhos de Marilda estávamos mais próximos de uma interpretação narrativa em diálogo com os poemas.


A diferença fica bem evidente, por exemplo, nas ilustrações que acompanham o poema da página 11 (versão antiga), ou 16 (versão nova)


Tufo de capim

em boca de boi será

chiclete de menta?



Marilda criou uma fileira de vacas brincalhonas, de sininho e tudo, soprando imensas bolas verdes de capim-chiclete, sobre uma montanha colorida. Lúcia, em página dupla, apresenta uma vaca feita de poucas manchas, poucos traços e poucas cores, uma vaca zen quase abstrata. São duas belas e quase opostas releituras do mesmo poema.


Outra modificação fundamental da nova versão é o número de páginas, ampliado de 24 para 32. Marilda teve, proporcionalmente, menos espaço para trabalhar, pois o livro trazia um poema por página. Já Lúcia teve a sorte, ou o privilégio, abrir páginas duplas para diversos poemas e, com isso, os haicais de Angela respiram mais e têm mais espaço para voar.


Para professores e bibliotecários, o ideal seria ter em mãos as duas versões do livro. Este material duplo permitiria várias abordagens, reflexões e trabalhos práticos em torno da poesia, do haicai, da relação poema x imagem, do uso das cores, da concepção do objeto livro. Mas como, infelizmente, a versão de 1996 não está mais disponível para venda, o jeito é escarafunchar bibliotecas e sebos para conseguir esta pequena pérola produzida em parceria por Angela e Marilda, e reuni-la com a nova versão, igualmente preciosa, de Angela e Lucia.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SOUZA, Angela Leite de. Três gotas de poesia. Ilustrações de Marilda Castanha. São Paulo: Moderna, 1996 (fora de catálogo).


SOUZA, Angela Leite de. Três gotas de poesia. Ilustrações de Lúcia Hiratsuka. São Paulo: Moderna, 2002.







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