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Leo Cunha - Literatura infanto-juvenil
Desde: 22/12/2003      Publicadas: 217      Atualização: 28/05/2015

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 Opinião

  17/02/2004
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Uma escritora parecida com a gente

Artigo que escrevi sobre a obra da escritora Rosa Amanda Strausz, publicado na Revista Releitura, da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte (BPIJBH), em fevereiro de 2004.

Uma escritora parecida com a genteAtualmente, entre os estudiosos do livro infantil, uma postura é quase consensual: a de que a literatura para crianças não deve ser didática, não deve se preocupar em passar lições de moral, conselhos, ensinamentos disfarçados de narrativa ou poesia. É claro que eu concordo com esta postura, porém acredito que ela não deve ser encarada de forma maniqueista, sob o risco de escamotear algumas nuances importantes que existem entre um extremo - digamos, um texto altamente expressivo - e outro - um texto fortemente contaminado pelo didatismo.

Uma leitura atenta da obra infantil de Rosa Amanda Strausz revela como os livros infantis podem ser literários, expressivos, lúdicos, divertidos, emocionantes, mas ao mesmo tempo trazerem histórias que colaboram na formação da criança.

Eu escrevi “formação”? Será que é hora de acender a luz amarela, ligar os avisos de perigo, o alerta estético anti-pedagogia? Claro que não: quero apenas sublinhar que os livros de Rosa Amanda apresentam vivências, experiências, dúvidas, reflexões, etc, típicas do universo infantil. São textos feitos, claramente, a partir de uma idéia central, um conceito, quase sempre a partir de situações que a criança encontra no dia-a-dia. Mas isto é muito diferente de um livro que quer passar uma “mensagem” a ser aplicada no dia-a-dia da criança.

Vou tentar exemplificar o que estou dizendo. Uma coisa é fazer - como se vê freqüentemente por aí - um livro para ensinar a criança a escovar o dente, catar piolho, atravessar a rua, lidar com o irmãozinho que está para nascer. Outra coisa é bolar uma história criativa e delicada, a partir da situação, tão comum, da criança que se vê perplexa diante do irmãozinho que vai chegar. Em “Pra que serve uma barriga tão grande?”, o narrador é um bezerrinho que se encontra justamente nesta situação, como mostra o trecho abaixo:
“Fiquei com medo: minha mãe estava mudando.
E não era só a barriga. Os olhos também estavam maiores do que antes.
Então, perguntei:
- Mamãe, pra que servem esses olhos tão grandes?
- São para olhar bem todos vocês e ver como sõa lindos os meus filhotes.
Arregalei meus olhos. E se ela achasse o bezerrinhos novo mais bonito do que eu?”


É evidente que alguém poderá tratar este livro meramente como uma ferramenta para “preparar” a criança para lidar com este tipo de problema. Mas isto seria desprezar outras características do texto: o humor, a afetividade, a intertextualidade (com “Chapeuzinho Vermelho”, no caso). Graça Paulino (2003: 19) e dirige aos professores “desejosos ou obrigados a seguir parâmetros, supervisores, coordenadores, programas, manuais didáticos e pais” e faz um alerta oportuno: “a leitura literária eticamente desejável tem um campo de liberdade e de subjetividade digno de atenção.” Por isso, explorar apenas a questão mais evidente, ou mais utilitária, em obras que possuam outras riquezas narrativas ou estilísticas, “é procedimento que fica aquém do que mereceria o livro.”

O mesmo vale para “Deus me livre!”, um dos textos mais originais, irreverentes e divertidos da literatura infantil contemporânea. A começar dos personagens escolhidos por Rosa Amanda: Deus e seu casal de filhos, Júnior e Deusinha. Logo após criar o mundo, Deus tenta explicar às crianças a lógica de sua criação e da procriação. Enquanto vai explicando as flores e sementes, os filhos se entusiasmam com as soluções encontradas, e saem soprando pétalas ao vento, brincando de fabricar novas flores. Mas a situação se complica quando os meninos tentam soprar uma galinha, depois uma vaca, e em seguida uma moça, mas nenhuma semente sai voando. “Esta galinha está estragada!”, resmunga Deusinha, e vai reclamar com o bispo, ou melhor, com o pai.

“- Essa sua invenção é uma porcaria! Não conseguimos fazer nem uma galinha nova, nem uma vaca, nem uma moça. Só florzinha, florzinha, florzinha...”

E Deus, desconcertado, acaba tendo que explicar em detalhes a reprodução dos animais e a humana, diante da descrença, susto e zombaria dos filhos. A história, que vai crescendo em humor e surpresa até desembocar num final hilariante, poderia, em tese, ser lida pelo viés da educação sexual (e assim agradar aos adeptos dos “temas transversais”). Para usar o jargão de algumas editoras, trata-se de um livro bom pra trabalhar a educação sexual. Mas tal simplificação seria um desperdício. Afinal, ao lado (e antes, e depois) da questão sexual, há na história um retrato agudo e certeiro do universo da criança, com sua curiosidade, sua lógica própria, sua graça, sua encantadora falta de cerimônia.

De forma semelhante, alguém pode reduzir “Uma família parecida com a da gente” à condição de um livro que ensina às crianças as diferentes composições familiares presentes na sociedade atual: o casal separado, a mãe abandonada, o pai que se casa de novo, o pai que fica em casa enquanto a mãe trabalha, etc, etc. Mas tal leitura passaria ao largo de uma construção narrativa inusitada, bastante aberta e dinâmica, que em outro artigo eu denominei de “narrativa em forma de ábum” (CUNHA, 2003):

“Rosa Amanda Strausz cria uma série de retratos de famílias bem diferentes entre si, e, para cada uma, traça uma analogia com um tipo de organização ‘familiar’ do reino animal. A ligação entre os trechos, se existe, é muito tênue. Seria possível ler cada seção de maneira separada, sem se preocupar com as relações entre uma família e outra.

"(...) Quando as emas ficam grávidas, elas botam seus ovos no ninho e vão embora. Quem fica chocando os ovos e cuida dos filhotes depois que eles nascem é o macho.
É como aconteceu com o Felipe e a Luísa. Quando os pais deles se separaram, Felipe e Luísa ficaram morando com seu pai. É ele quem cuida dos dois, leva para a escola, dá banho e jantar."

Para reforçar a sensação de obra dinâmica, em processo, a autora sugere, em seu site, que os leitores enviem suas próprias descrições de famílias, com as respectivas analogias com o mundo animal.


Sem censura

Ler a obra de Rosa Amanda Strausz é encontrar uma autora de imaginação fértil e sem censura, que cria a sua fantasia, de forma sempre inesperada, a partir das situações mais prosaicas: as relações familiares, as qualidades e defeitos do ser humano, os problemas e dilemas do dia-a-dia. Como ressaltou Antonieta Cunha na apresentação do livro “Alecrim”, a fantasia, para Rosa Amanda, “não é fuga, ainda que por alguns momentos, da vida cotidiana. Ao contrário, é uma lente especial para entender a realidade e descobrir pistas para mudá-la.”

Ler a obra de Rosa Amanda é, além de tudo, encontrar uma grande leitora, que traz boas e variadas influências, de Monteiro Lobato a Sylvia Orthof. Num artigo em que analisa a produção literária para crianças na década de 90, Rosa se confessa discípula de Sylvia, autora que, segundo ela, conseguia alta “comunicabilidade” com seus leitores. Ao falar dos “herdeiros” de Sylvia, Rosa acaba fazendo uma boa descrição de sua própria literatura:
“A característica comum desse grupo é o inarredável comprometimento do escritor com seu leitor - não confundir com o compromisso com o mercado que, como já se viu, no caso da literatura infantil, tem características especiais. Críticos, provocadores, encontram em seus pequenos leitores os melhores interlocutores para questionar a aparente normalidade do mundo infantil.”

Mas nem precisava desta profissão de fé: para o leitor, basta ler “Alecrim”, a história de uma fada muito da orthófica. Alecrim é uma das mais fascinantes personagens construídas por Rosa: uma fadinha bem-intencionada e bem atrapalhada, que antes de tomar alguma decisão importante, sempre tem que lamber o travesseiro, feito de doce, maria-mole, brigadeiro e outras delícias. Decidida a resolver os problemas e realizar os desejos alheios, Alecrim demora para perceber que de boas intenções o inferno das fadas também está cheio. Para resolver este impasse (e para amadurecer, enfim), ela decide apelar para os livros e personagens da “Grande Fada Sylvia Orthof”. Com isso, Rosa cita e homenageia vários livros da escritora carioca, especialmente “Uxa, ora fada, ora bruxa” e o “Manual de boas maneiras das fadas”.

Enfim, como este espaço é pequeno para abordar cada um dos livros de Rosa, encerro o artigo retomando a questão da literatura que educa - através do prazer, do encantamento, da surpresa, da descoberta - em vez de ensinar. E para isso, recorro às palavras de Ieda de Oliveira, muito mais precisas do que as minhas:
“Não é função da literatura infantil nem de literatura nenhuma, ensinar nada a ninguém, marcando a ferro e fogo, ditando normas de conduta, ou seja lá o que for, mas educar no sentido etimológico da palavra, conduzindo para fora do sujeito o que nele já existe, contribuindo para, através do belo, ampliar sua percepção de mundo e isso vale para todas as artes. O artista é o áugure solitário, que, estabelecendo sentido através do belo, cria condições para o surgimento de novos áugures. O artista é formador de leitores.”

Bibliografia completa de Rosa Amanda Strausz (com votos de muitos espantos e boas risadas):

• A coleção de bruxas do meu pai. Rio de Janeiro: Salamandra, 1995.
• Alecrim. Rio de Janeiro, Objetiva, 2003.
• Coleção Tião Parada. São Paulo: Moderna, 1998.
• Deus me livre! São Paulo: Cia das Letrinhas, 1999.
• Mamãe trouxe um lobo pra casa. Rio de Janeiro: Salamandra, 1995.
• Mínimo múltiplo comum (adulto). Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.
• Para que serve uma barriga tão grande?. São Paulo: FTD, 2003.
• Salsicha quer falar. São Paulo: Moderna, 1999.
• Uma família parecida com a da gente. São Paulo: Ática, 1998.
• Um nó na cabeça. Rio de Janeiro: Salamandra, 1998.
• Uólace e João Victor. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

Referências bibliográficas

CUNHA, Leo. “A gaveta e o álbum: outras narrativas para a criança”. In: PAIVA,
Aparecida et alii (Orgs). Literatura e Letramento - espaços, suportes e interfaces,
o jogo do livro. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

OLIVEIRA, Ieda de. “A maioridade da literatura infantil”. Palestra proferida na
Academia Brasileira de Letras, em 05/11/2003.

PAULINO, Graça. “Livros, críticos, leitores: trânsitos de uma ética.” In: PAIVA,
Aparecida et alii (Orgs). Literatura e Letramento - espaços, suportes e interfaces,
o jogo do livro. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

PAULINO, Graça. "Diversidade de narrativas". In: PAIVA, Aparecida et alii (Orgs) No
fim do século: a diversidade - o jogo do livro infantil e juvenil. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

STRAUSZ, Rosa Amanda. "Literatura para crianças segue novos rumos". Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 18/05/2001.

•Obs: a imagem acima é uma reprodução da ilustração do Ivan Zigg para o livro "Uma família parecida com a da gente".





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